A virtualização do amor

Minha fonte de inspiração para nosso papo de hoje veio de uma conversa que presenciei no Facebook de um conhecido. Animado, ele trocava flertes (através de comentários em uma postagem) com uma européia que perguntava, tão entusiasmada quanto, quando ele viajaria até lá para conhecê-la. Até aí a questão não foi de completo estranhamento para mim. Afinal, em um mundo globalizado como o que estamos vivendo, é comum que as pessoas conheçam umas às outras e formem vínculos (sejam eles de amizade ou romance) por meio da internet. No entanto, a resposta que se seguiu foi a que mais me surpreendeu. O indivíduo em questão, que já tem fama de ser adicto em tecnologia, propôs à pretendente que realizassem um jantar via skype, "com direito a vinho e muito mais", nas palavras do Don Juan virtual. 
 
O impacto da proposta aparentemente "normal" (e deixo esse normal entre aspas, já que a normalidade ainda é muito discutida) me levou a semana queimando os neurônios. Jantar, vinho e a sugestão discreta de  que o evento poderia evoluir. Um encontro como qualquer outro... Exceto por um oceano entre os dois. 
Veja, minha posição aqui não é criticar as escolhas de cada um, não mesmo. Tenho uma série de amigos espalhados pelo Brasil (que conheci assim, virtualmente, e são mais presentes do que muitos que vivem por perto) e conheço uma gama de gente que se apaixona utilizando megabytes como cupido. O que abordo no texto de hoje é o quanto estamos fugindo desesperadamente do contato. 
 
Há anos atrás lembro de ter assistido o filme "Crash - No Limite" que trazia à tona o fato do contato através do toque estar sendo gradativamente perdido na sociedade e, na época, fiquei chocada ao constatar que o que assistia na televisão retratava a mais pura realidade do dia a dia. Hoje, dez anos depois do lançamento, posso afirmar que as coisas pioraram ainda mais. 
 
Nos tornamos medrosos. Medrosos de deixar alguém entrar, de mergulhar fundo em algo real, de deixar que o outro nos conheça por completo e também de conhecê-lo. As relações estão no campo da superficialidade, rasas, fracas e tão descartáveis quanto seu celular que já começa a ser cogitado ir para o fundo da gaveta assim que começa a travar. Encontramos os amigos em grupos de WhatsApp ao invés de reuni-los para passar o tempo juntos, buscamos o amor em aplicativos onde as pessoas mentem sobre quem são e ostentam deliberadamente na tentativa vã de surpreender uma candidata, potencializamos o tão famoso status "em um relacionamento sério" quando a seriedade (ou o amor!) sequer existem na relação, brigamos por uma rival que curtiu a foto do companheiro, discutimos por mensagens, mandamos áudio ao invés de ligar, usamos o skype para ver alguém, trocamos fotos indiscretas (famosas nudes!) na substituição do sexo - a forma mais verdadeira e carnal de se entregar a outro ser humano - e, por fim, apelamos aos emojis que expressem as emoções que a distância (e a ausência do contato) nos impedem de mostrar. O que nos tornamos? 
 
Não nego a ausência do amor em relações virtuais. Quem seria eu para negar? O amor está a cada esquina, em qualquer forma e de maneiras tão peculiares que nos surpreendem. O que nego, com veemência, é como estamos roborizados, mecanizados e programados. Que o amor seja vivido com intensidade, que seja possível segurar as mãos em um encontro, que sejamos corajosos de permitir que a realidade nos invada! É fácil ser superficial, eu sei, é seguro manter nossos relacionamentos (e estou falando também dos namoros presenciais) em um nível onde o apego não tem vez e onde o risco de sair com o coração ferido é menor. Mas custa, será que custa, nos deixarmos envolver? Não se tornem o Theodore do filme Ela e lembrem-se que até ele se magoou. Porque amar é isso: causa dor mesmo. Relacionar-se (seja com quem for) vai te deixar em frangalhos em algum ponto. O que não podemos é permitir que isso nos afaste da interação, de dar a cara a tapa e de, principalmente, viver. Chame um amigo para sair hoje a noite, ligue para alguém que não fala ha muito tempo e diga que está com saudades (não mande mensagem!), abrace um familiar especial e beije (muuuuuito!) a pessoa que você ama. Se ele/ela está longe, é compreensível que a tecnologia seja a fada madrinha do casal. Mas se quer um conselho de amiga: está na hora de começarem a ver as passagens! Apaixone-se por alguém de carne e osso, toque a pele, sinta a magia e declare seu amor. Não sejam como o rapaz do vinho pelo skype e do sexo virtual. Você pode mudar isso hoje e ele também, uma pena que não sabe disso. 

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Sobre o autor

Juliana Costa
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